
Escapei-te entre os dedos. Mesmo quando foram enumeras as vezes em que te avisei — e tinha razão — que me agarrasses com as tuas enormes, mas sempre delicadas mãos que em tempos percorriam as minhas curvas, e mesmo assim deixas-te-me escapar.
Não sei se foi por falta de vontade de fechar o punho, ou simplesmente por pura distração, mas escapei-te. Escapei por onde nunca acharias que fosse escapar, porque nunca acharias que escapasse por tão pouco. E talvez o problema das pessoas seja esse, achar que vão haver para sempre motivos para ficarmos, quando poucos nos dão.
E agora estás aí, provavelmente na defensiva de que estarás bem sem mim, mas por experiência própria, terás o teu tempo. Sei que vais cair na realidade de que já não terás mais quem ature os teus maus estares, quem festeje as tuas vitórias e quem caminhe ao teu lado, lado a lado. E não terás, única e exclusivamente porque por mais que goste de ti, foi por ti que escapei.
Talvez não estivesse tão segura. Talvez o mal fosse achar que estaria segura, fosse achar que seria para ti o que és para mim, mas obviamente estava enganada. Deixei-me estar. Deixei-me estar nas mãos de quem dia acabei por escapar. E repito várias vezes que te escapei, para que não restem dúvidas de que me deixaste faze-lo.
E ainda me lembro de quando te dizia para me agarrares antes que fosse tarde demais e tu, sempre com esse feitio tão moroso e tão sarcástico disseste-me que me agarrarias até com as duas mãos se fosse preciso, e foi preciso, só não cumpriste com a tua palavra.